Em 1988 o meu cliente ideal nem tinha salão aberto

O meu perfil de cliente ideal em 1988 cabia numa linha. Hoje uso a IA para dar a cada cliente uma razão para lhe ligar — sem inventar nada.

JCOliveira

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Comecei a vender em 1988.

Nessa altura, o meu cliente ideal cabia numa linha. Cabeleireiro ou esteticista. Com salão aberto — ou nem isso. E que atendesse clientes.

Era a lista toda. Não havia mais filtro.

Se cortava ou pintava cabelo, era para mim.

Hoje chamam a isto perfil de cliente ideal. Em inglês dizem ICP — ideal customer profile. É a descrição de quem tem mais probabilidade de te comprar, e de continuar a comprar.

O meu, em 1988, era pobre. Mas era honesto: dizia o que eu sabia e não fingia saber mais.

O perfil cresceu com os quilómetros

A agenda era um caderno de papel, com as rotas da semana escritas à mão. Cliente longe só se marcava com antecedência — ligar às cegas era dinheiro a arder.

Foi isso que me obrigou a afinar a linha.

Só muitos anos depois ganhou mais colunas. A localização. O tipo de clientela. Os consumos. Os serviços que cada salão fazia.

Nenhuma dessas colunas veio de um curso. Vieram de bater à porta errada. E de perceber, já no carro, porque era a errada.

Foi assim que aprendi prospeção. A corrigir o perfil depois de cada visita errada.

Novembro é preparar a terra

Ontem foi dia de Todos os Santos. Hoje começa o mês em que muita gente prepara dezembro.

Há uns anos escrevi no meu grupo de vendedores: a colheita inicia-se na preparação da terra. Adubar, semear, regar. Ir cuidando até ao momento de colher.

Dezembro é colheita. Novembro é a terra.

Em vendas, essa terra tem nome: pipeline. É a lista das pessoas com quem estás em conversa. Arrumadas pela distância a que estão de comprar.

Pipeline vazio em novembro é dezembro magro. E não há esforço de última hora que faça crescer o que não foi semeado.

O problema não é a lista. É a razão.

Quase todos os vendedores que conheço têm lista. Clientes antigos, contactos no telemóvel, cartões numa gaveta.

O que falta quase sempre é outra coisa: uma razão para ligar a cada um.

Sem razão, a chamada é «só para saber como está». E o cliente percebe à primeira frase.

Aqui entra mais um termo que é frequente ouvires. Um lead é um contacto que ainda não comprou — ou que ainda não comprou isto. É frio quando não te conhece ou não espera ouvir-te. É quente quando já mostrou interesse ou tem um motivo para falar contigo agora.

A mesma pessoa passa de fria a morna. Basta teres uma razão verdadeira para lhe ligar.

E a razão nasce do perfil. Se o teu perfil de cliente ideal ainda é a linha de 1988, a razão também é. «Corta ou pinta cabelo, logo deve precisar.»

Perfil de cliente ideal — JC Oliveira compara um cartão de cliente antigo com uma lista no portátil onde três clientes têm um ponto de interrogação. Imagem criada com IA sob direção e com revisão prévia de JC Oliveira
O meu perfil em 1988 cabia num caderno. Se o teu ainda está só na cabeça, faz o exercício do Cliente Ideal. Três perguntas. No fim sabes também quem não é.

O truque de IA: uma razão numa frase, por cliente

Antes do truque, a palavra que vem com ele. Um prompt é só o pedido que escreves à IA. Quanto mais claro o pedido, menos ela inventa.

O exercício faz-se numa manhã:

  1. Escolhe 10 clientes ou contactos que encaixam no teu perfil.
  2. Para cada um, escreve só o que sabes de facto. O que compra. Quando comprou pela última vez. O que te disse na última conversa.
  3. Cola essa lista na IA, com este pedido:
Tenho esta lista de clientes. Para cada um, escreve UMA frase com a razão
mais forte para eu lhe ligar este mês, usando SÓ o que está escrito sobre ele.
Se não houver dados suficientes para uma razão verdadeira, escreve
"não sei — falta: [o que falta saber]".
Não inventes factos, datas nem necessidades.
No fim, diz-me os 3 clientes com a razão mais forte e porquê.
  1. Lê as frases uma a uma. Corta tudo o que soar a inventado.

A linha mais importante do pedido é a do «não sei».

A IA tem um defeito parecido com o do vendedor novo. Prefere dar uma resposta a admitir que não sabe.

Sem licença para dizer «não sei», preenche o vazio. Com uma frase que soa bem.

E tu ligas ao cliente com uma razão que não existe.

Os «não sei» são a parte mais valiosa da lista. Mostram-te, cliente a cliente, onde o teu perfil de cliente ideal ainda é a linha de 1988.

A IA não liga por ti. Não ouviu o tom de voz do cliente na última conversa. Não sabe o que ficou por dizer. Isso continua a ser teu.

O que ela faz é poupar-te uma manhã. A manhã de olhar para a lista sem saber por onde começar.

O que faço hoje

Quando faço o contacto, marco logo o seguinte. Fica na segunda-feira da semana em que quero voltar a falar com o cliente. A segunda-feira não é fixa. A semana, sim.

Registo o que conversámos, as queixas e as necessidades que ouvi — mas também as que vi.

O objetivo: poder negociar internamente, caso o cliente precise de algo fora do guião normal.

E tenho mais de metade da reunião seguinte preparada. A informação posterior fica alinhada. Ficam pontos de partida para o contacto seguinte. Tudo em menos de 5 minutos.

Uso duas apps: uma personalizada para o histórico — métricas, comparações, etc. — e o closerpace.com como CRM de seguimento.

Uma linha e nenhuma razão

Em 1988, a minha lista tinha uma linha e nenhuma razão.

Hoje tem mais colunas — e ainda tem «não sei» em vários clientes. A diferença é que agora sei onde estão.

Se tivesses de ligar hoje a dez clientes, quantos teriam uma razão verdadeira — e quantos seriam «só para saber como está»?

Escrito com apoio de IA na organização das ideias e da experiência de JC Oliveira · revisto antes de publicar.


PS — Queres ter no mesmo sítio o perfil, a lista e a razão de cada contacto? Foi para isso que construí o CloserPACE. Conhece o CloserPACE